quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A viajante


... E quinze minutos depois ela via geloucos transparentes correndo no início ao final da rua, em câmera lenta, indo em direção a ela e quando chegavam bem perto do carro, puff - desapareciam, sumiam, ela não os via mais, inexplicável. Isso a desesperava, por ela não saber exatamente do que se tratava aquilo. Espíritos? não... ela não tem essa sensibilidade toda. Então o que era aquilo? Ela sentia presenças, vozes, olhava para os lados preocupada. Mas logo algo "tão engraçado" a entretia e a fazia esquecer dessa loucura. Tudo era motivo de gargalhada. Talvez se ela lembrasse de tudo - do que na hora parecia ser tão engraçado - hoje, não tivesse a menor graça. E não tem, pelo que ela lembra...
A lua estava ali, presenciando tudo. Ela a olhava, sorria e dizia o quanto a amava. Ele então fazia perguntas sobre esse amor e ela, com os olhos brilhando, as respondia doce e delicadamente.
Ela estava mole  e não sentia as pernas. Passou meia hora e não aguentaram... começaram a se agarrar, beijar, alisar... Ela quase não sentia seus toques, mesmo quando ele acariciou uma parte difícil de não sentir nada. Ela até sentia, mas, intrigantemente, suas pesadas mãos pareciam delicadas patas de passarinho. Apesar de toda aquela pegada, apertos e beijos no pescoço, ela sentia lá no fundo, bem no fundo, um leve toque. Era a única coisa que ela sentia. O que se passava? mas ela ria e nem ligava.
Eles já tinham feito aquilo, não havia nada novo e não seria a primeira vez que se tocariam. Ela o tocou, retribuindo seus toques e ele sim, respondeu ao estímulo. Logo se despiu e ela, mais uma vez, como de todas as outras, não reagiu bem na hora. Ficava sempre vidrada diante daquilo tudo. "Coisa linda, visão do paraíso, perfeição", ela dizia.
Ele então, como de costume, morreu de prazer e ela... saiu como chegou. Para ela é difícil, tem que ter paciência, ela demora, tem que querer fazê-la sentir prazer. Mas parece que ele nunca quer, afinal, não se importa de sair sem ouvir dela que aquilo foi a melhor coisa que ela já fez. Ah, mas ela faz questão de saber que ela é a melhor, que ninguém faz como ela e que igual não há. É bom ouvir, infla o ego. Por isso, o dela vive cheio... todos elogiam, não tem do que reclamar. 
Ela sentia muita sede e nem água fazia melhorar. Sua boca estava dormente e ela não conseguia pensar em nada. 
Quando já estava amanhecendo, eles resolveram se despedir. Ela entrou e ele partiu. 
Ao deitar, olhou pro teto e viu tudo embaçado. Levantou-se, bebeu 4 copos de água, trocou de roupa, lavou o rosto e deitou-se novamente. Pensava em tudo e não conseguia pensar em nada.
Não era mais tão engraçado, mas ela ainda ria baixinho lembrando e de repente começou a falar consigo mesma: "é... o tempo é uma coisa relativa. Se hoje fosse ontem, amanhã seria hoje. De qualquer forma eu tô tranquilo, do jeito que tá, que tá bom. Como dizia o síndico: ' vai saber o que o gorila pensa' ". E em seguida, ria novamente.
Era tudo muito louco, tudo muito novo, ela nunca, antes, havia se sentido daquela maneira. 
Acordou três vezes suando feito um porco, mas voltou a dormir, feito pedra, muito pesado.

No dia seguinte, resolveu refletir sobre o que havia acontecido. "Ainda bem que a lua não fala- pensou ela".
Não é que ela se arrependa, foi legal, mas não quer mais fazer isso. O efeito é ruim e ela ficou mole, sem reação, sem resposta à estímulos. 
Por saber como seria, escolheu ir com ele, afinal, ficar sem reação, mole e tudo mais, rodeada por pessoas desconhecidas, não seria muito legal, visto que estava vulnerável e imune a qualquer tipo de assédio físico e moral. 
"Foi louco, foi legal - repetia. Mas dispensável... a não ser pelo fato de que essa é menos uma coisa da minha lista de novas experiências - confessa ".